Chegada

 

O que está no centro do Universo? Ou melhor, o que é o Universo? Por que não um multiverso? Será a Terra tão especial ao ponto de ser única na imensidão cósmica? Estas questões, mais ou menos metafísicas, ocupam o espírito e a mente dos seres humanos desde os primórdios da sua evolução. Olhar para as estrelas e para o imenso negro desconhecido do Universo foi – e continua a ser – uma paixão e até uma obsessão para muitos milhões de humanos. De onde vimos, qual é o nosso lugar nesta imensidão, o que esperam de nós, quem somos. Tantas e tantas questões que nos têm atormentado enquanto espécie.

Olhemos para os números. Apenas na Via Láctea, a nossa galáxia, estima-se que possam haver até 400 mil milhões de estrelas. Quatrocentos mil milhões de sóis e cada um, provavelmente, com o seu sistema de planetas a orbitar. Isto em apenas uma galáxia. E estima-se que existam entre 100 e 200 mil milhões de galáxias no Universo, cada uma com os seus milhares de milhão de estrelas e respectivos sistemas de planetas. São números grandes, avassaladoramente grandes.

A vantagem dos números é que podem ser usados para fazer cálculos e para análises estatísticas. Com a sua famosa equação, Frank Drake tentou fornecer um método matemático para estimar o número de civilizações extra-terrestres que poderiam existir na Via Láctea e desenvolvidas tecnologicamente ao ponto de poderem ter um sistema de comunicação. Para chegar a esse número, Drake considera variáveis nem sempre claras, tais como a fracção de estrelas que tem planetas na sua órbita, o número desses planetas que pode albergar vida (pelo menos nos moldes da vida na Terra), ou ainda uma série de outras fracções que vão desde a existência de vida inteligente até à criação de sistemas de comunicação. De acordo com as suas estimativas iniciais, poderiam existir entre 1000 e 100 mil milhões de civilizações nessas condições, exclusivamente na Via Láctea.

Mas se é tão provável que vida inteligente se possa ter desenvolvido noutras partes do Universo e sendo a Terra um planeta relativamente recente, podemos colocar-nos a questão feita pelo físico italiano Enrico Fermi: “Onde está toda a gente?”. Como explicar o paradoxo de, por um lado, ser estatisticamente altamente provável que exista vida extra-terrestre inteligente e, por outro, não termos o mais pequeno sinal dessa existência? Várias possibilidades de resposta existem.

Desde logo, a possibilidade de a criação de vida ser altamente improvável e difícil de se verificar. Neste cenário, a junção de átomos e moléculas no sentido de criar estruturas mais complexas seria altamente improvável, fazendo da Terra um exemplar quase único. Mas, mesmo que a vida se chegue a formar, a passagem para formas de vida mais complexa, fruto das condicionantes da evolução, pode ser tão improvável que na grande maioria dos planetas onde a vida possa existir, se possa nunca ter passado de formas de vida unicelular. Pode também ter existido vida inteligente mas que, por razões naturais ou artificiais, se tenha extinguido, não restando dela sinais visíveis. Mas há ainda possibilidades mais aterradoras. Imaginemos uma civilização imensamente mais avançada que a nossa; uma civilização do tipo III na escala de Kardashev, capaz de usar e controlar toda a energia na sua galáxia. Uma civilização que pensava e interagia de uma maneira completamente da nossa, de um modo tão complexo que não poderíamos sequer começar a tentar entendê-los. Como alguém disse, seria o equivalente de os primeiros europeus chegados às américas terem tentado comunicar com as formigas: simplesmente, seria impossível. Ou talvez não.

Escrevo isto a propósito de Arrival, o mais recente filme do realizador quebequense Denis Villeneuve. Depois de filmes como Enemy (adaptação livre de “O Homem Duplicado” de Saramago), Sicario ou o excelente Incendies, Villeneuve assina agora um filme que entra directamente no panteão dos filmes de ficção científica. Adaptando uma história de Ted Chiang, o realizador consegue fugir a muitos dos clichés e lugares-comuns que vitimam filmes e livros do género. Uma obra única, desafiadora das próprias concepções da ficção científica no cinema e que será certamente um marco neste tipo de cinema.

Chegados à Terra sem qualquer aviso prévio, doze naves espaciais a fazer lembrar grandes monólitos colocam-se em pontos estratégicos do planeta, pairando a alguns metros de distância do solo. Mais do que perceber de onde vêm, o que são, como é a sua tecnologia, como funciona o seu organismo ou responder a qualquer outra questão semelhante, o âmago do filme é tentar perceber como duas civilizações em estados evolutivos diferentes podem comunicar. Temos pois como personagens principais uma linguista, Louise Banks – magistralmente representada por Amy Adams – e um físico teórico, Ian Donnelly – num papel bastante diferente daqueles que tem vindo a desempenhar em vários filmes de acção. Três anos depois de American Hustle, os dois actores voltam a contracenar, sendo a química entre ambos bastante boa ao longo de todo o filme.

A fotografia é bastante negra, seja quando o exército americano vai buscar Banks a sua casa durante a noite, nas imagens nocturnas de alguns dos pontos onde as naves aterraram ou até do interior do campo militar construído no Montana, onde se encontra a nave que vemos ser explorada no filme. A única excepção feita a esta imagem pesada parece ser o interior da “concha espacial” que, contrariamente ao seu exterior negro, é de uma alvura extrema.

A história gira em torno da personagem de Adams, confrontada com a necessidade de conseguir, num curtíssimo espaço de tempo, interpretar o modo de comunicação dos visitantes alienígenas. Seguimos os seus medos e inseguranças, as suas dúvidas mas também as suas certezas e a sua coragem de agir contra aquilo que lhe é ordenado. Em paralelo com esta acção no tempo presente, somos confrontados com várias passagens da vida de Louise Banks num outro tempo que, no final do filme, encaixam perfeitamente na narrativa geral. E aqui colocam-se várias questões: o que é o tempo? Será unilinear como o imaginamos na Terra, ou poderá ser algo mais?

Mas se Banks consegue fazer alguns progressos de modo a comunicar com os seus interlocutores extra-terrestres, noutros pontos onde as naves decidiram aterrar a realidade não é a mesma. Reflectindo as bem actuais dificuldades de diálogo internacional, vamos assistindo, um a um, à saída dos países onde as naves se colocaram de um grupo de partilha de informação. A diferente visão por parte dos diferentes países em relação à ameaça que as naves colocam à própria espécie humana acrescenta ainda mais tensão ao filme. E afinal, não terá sido para unir os diferentes povos da Terra que o planeta foi visitado? Será essa a resposta ao enigmático pedido de ajuda feito?

Arrival – “O primeiro encontro” é no fundo uma história sobre o livre-arbítrio. Confrontada com uma série de decisões difíceis, Banks opta sempre pela decisão que lhe parece mais justa, independentemente dos custos das mesmas – e, na mais difícil das decisões que toma, o custo é bastante elevado. Um dos melhores filmes do ano, sobre extra-terrestres e sobre terrestres, sobre o presente e sobre os futuros, sobre um nós (e são vários os “nós” terrestres) e um eles. Um excelente trabalho de Denis Villeneuve, que nos deixa confiantes em relação à sequela de Blade Runner que também está nas suas mãos.

images-duckduckgo-com

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