Algumas notas sobre o trabalho e o emprego

 

A Safaa Dib avança excelentes pistas sobre onde estamos e para onde queremos ir enquanto sociedade e sobre o lugar que o “trabalho” ocupa nesse futuro. Acrescentaria apenas algumas notas:
1) A busca de um trabalho remunerado e dentro do sistema não se faz exclusivamente pela necessidade do rendimento daí resultante. Na maioria dos países da Europa, o próprio acesso a outros rendimentos – e.g. fundo de desemprego, pensão – está dependente da participação no mercado de trabalho, seja como trabalhador, seja, na pior das hipóteses, como desempregado activamente à procura de (re)entrar no mercado de trabalho.
2) Para quem não tenha herdado uma fortuna nem tenha outras fontes de rendimento, um emprego, mais do que um trabalho, torna-se assim uma obrigação económica mas também moral. Actualmente, aos olhos da sociedade e até do Estado, é moralmente mais aceitável um cidadão que trabalhe, mesmo que contrariado e com condições ultra-precárias, que um cidadão desempregado por rejeitar desempenhar um trabalho perfeitamente inútil ou por rejeitar más condições. Pior ainda, mesmo que esse desemprego seja voluntário e fruto de um desejo do indivíduo em investir noutras áreas, tais como voltar a estudar ou envolver-se em algum projecto artístico, continua a ser moralmente mais aceitável o primeiro caso indicado no ponto 2) pelo simples facto de num dos casos o individuo estar dentro do mercado de trabalho (e desse modo contribuir para o “bem da sociedade”) e no outro não.
3) Esta moralidade do trabalho é consequência do lugar sacrossanto que o trabalho remunerado ocupa actualmente no nosso modelo económico e social; e é esse papel que importa desafiar.
4) Contrariamente a anteriores saltos tecnológicos, estou convencido que o grande salto dado graças às tecnologias de informação irá destruir mais postos de emprego que aqueles que criará. Uma nota importante: muitos dos empregos que ainda existem são perfeitamente redundantes e “desnecessários”, no sentido em que os trabalhadores humanos que os desempenham podem perfeitamente ser substituídos por máquinas; já para não falar dos empregos que não acrescentam qualquer valor à sociedade ou que têm até um valor negativo. E não tenhamos dúvidas: se não existem muito mais trabalhadores no desemprego tal deve-se às suas miseráveis condições de trabalho. A tecnologia actualmente disponível permite já substituir milhões desses trabalhadores; e tal acontecerá assim que o custo com esses trabalhadores deixe de compensar o investimento na tecnologia.
5) Mais do que lutar para manter empregos que em nada contribuem para a sociedade – ou que até contribuem de modo negativo – devemos perguntar que tipo de emprego queremos e como o queremos distribuir por aqueles que desejem desempenhá-los.
6) A luta pela utopia do pleno emprego deve ser feita mas não sem antes decidir que empregos e para quem. Desde logo, é essencial que quem não queira entrar no mercado de trabalho clássico e prefira experimentar outras formas de vida, nomeadamente formas mais frugais, sustentáveis e assentes na comunidade, o possa fazer. Para tal, a instituição de um rendimento básico universal – e muitos são os formatos possíveis – pode dar um contributo essencial. Mas nem este rendimento é uma panaceia nem pode ser visto como alternativa a outras políticas igualmente essenciais: fortes políticas de redistribuição, taxação das fortunas, taxação das transferências financeiras, um tecto máximo no rácio entre o menor e maior salário, redução drástica do número de horas de trabalho semanal.
7) Trabalhar deve ser um acto de prazer e de liberdade. Mas não se pode ser livre nem se pode tirar prazer de algo que se faz por obrigação, seja ela financeira ou moral.

Noutra ocasião voltarei ao tema, abordando a ligação entre o consumo e o emprego e de como o sistema capitalista nos “obriga” a consumir – mesmo que desnecessariamente – sob pena de contribuirmos para o desemprego em massa.

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