Vizinificar: uma obrigação para as cidades abertas

O abandono dos centros das cidades por parte dos residentes permanentes é uma realidade um pouco por toda a Europa. O caso português é paradigmático, com o abandono, ao longo das últimas décadas, dos centros das cidades do Porto e Lisboa e fixação nos subúrbios das mesmas – sendo as dezenas de edifícios devolutos nos centros históricos prova deste facto. São múltiplas as causas deste fenómeno, desde a facilitação do acesso ao crédito, o que permitiu a compra (nos arredores) em vez do arrendamento (no centro), até fenómenos mais recentes relacionados com a turistificação. Este segundo aspeto tem sido um dos mais focados – não raras vezes de um modo extremado, a roçar a aversão ao turista – impedindo uma discussão mais profunda sobre como promover uma cidade aberta, em primeiro lugar, aos seus residentes e, em segundo, àqueles que nela querem entrar.

Os fenómenos de gentrificação consistem, de um modo simplificado, na valorização de uma determinada área, tendo como consequência a expulsão dos residentes com menores meios económicos. Estes fenómenos têm múltiplas faces (e fases) tendo um denominador comum: afetam sobretudo os mais desfavorecidos. Este impacto social negativo verifica-se também em casos de gentrificação menos debatidos, como os da gentrificação verde, em que até há um impacto ambiental positivo na comunidade. Ora, se é verdade que as autoridades públicas não podem deixar de investir em melhorias ao nível ambiental e que o turismo é um setor vital da economia portuguesa, é igualmente verdade que são essenciais medidas que protejam os residentes – famílias e negócios históricos – nos centros das cidades e que permitam, àqueles que o desejem, habitar a cidade. É preciso que as comunidades locais possam viver em conjunto e de modo saudável e que os lucros do turismo sejam investidos diretamente na comunidade; é preciso, em suma e permitindo-me roubar a expressão ao Barcelona en Comù, vizinificar a cidade.Read More »

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Algumas notas sobre o trabalho e o emprego

 

A Safaa Dib avança excelentes pistas sobre onde estamos e para onde queremos ir enquanto sociedade e sobre o lugar que o “trabalho” ocupa nesse futuro. Acrescentaria apenas algumas notas:
1) A busca de um trabalho remunerado e dentro do sistema não se faz exclusivamente pela necessidade do rendimento daí resultante. Na maioria dos países da Europa, o próprio acesso a outros rendimentos – e.g. fundo de desemprego, pensão – está dependente da participação no mercado de trabalho, seja como trabalhador, seja, na pior das hipóteses, como desempregado activamente à procura de (re)entrar no mercado de trabalho.
2) Para quem não tenha herdado uma fortuna nem tenha outras fontes de rendimento, um emprego, mais do que um trabalho, torna-se assim uma obrigação económica mas também moral. Actualmente, aos olhos da sociedade e até do Estado, é moralmente mais aceitável um cidadão que trabalhe, mesmo que contrariado e com condições ultra-precárias, que um cidadão desempregado por rejeitar desempenhar um trabalho perfeitamente inútil ou por rejeitar más condições. Pior ainda, mesmo que esse desemprego seja voluntário e fruto de um desejo do indivíduo em investir noutras áreas, tais como voltar a estudar ou envolver-se em algum projecto artístico, continua a ser moralmente mais aceitável o primeiro caso indicado no ponto 2) pelo simples facto de num dos casos o individuo estar dentro do mercado de trabalho (e desse modo contribuir para o “bem da sociedade”) e no outro não.Read More »